Autor: Equipe Diversidade Católica

4. O Antigo Testamento condena a homossexualidade?

Naquele tempo não havia o termo homossexualidade, mas pode-se falar de atração e relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo. Não se pode negligenciar o que a Bíblia diz sobre isto, nem os desdobramentos históricos que daí se seguiram. Mas é preciso se tratar deste assunto com a devida profundidade, indo além da leitura ao pé da letra. O livro sagrado dos cristãos não é manual de receita de cozinha ou manual de instrução de eletrodoméstico, com resposta categórica para todas as perguntas. Quem usá-la deste modo, próprio do fundamentalismo, não encontrará o Deus vivo, mas o ídolo da burrice. A Revelação divina testemunhada na Bíblia é expressa de diversos modos. Segundo o Concílio Vaticano II, o leitor deve buscar o sentido que os autores sagrados em determinadas circunstâncias, segundo as condições do seu tempo e da sua cultura, pretenderam exprimir servindo-se dos gêneros literários então usados. Devem-se levar em conta as maneiras próprias de sentir, dizer ou narrar em uso no tempo deles, como também os modos que se empregavam frequentemente nas relações entre os homens daquela época (Dei Verbum, n. 12). No judaísmo antigo, acreditava-se que o homem e a mulher foram criados um para o outro, para se unirem e procriarem. Supõe-se uma heterossexualidade universal, expressa no imperativo “crescei e multiplicai-vos” (Gn 1,28). Isto foi escrito no tempo do exílio judaico na Babilônia. Para o povo...

Leia Mais

5. Por que São Paulo, na Carta aos Romanos, condena as relações entre pessoas do mesmo sexo?

Cabe primeiro ressaltar que no tempo deste apóstolo não havia o termo homossexualidade, mas se conhecia a atração e as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo. A Carta aos Romanos afirma que quem ama o próximo cumpriu a lei, pois os mandamentos se resumem em amar ao próximo como a si mesmo (Rm 13, 8-10). Este é o espírito dos mandamentos e o critério de sua interpretação. Mas ao refutar o politeísmo, culto a diversos deuses, o apóstolo Paulo o associa ao homoerotismo (Rm 1, 18-32). Os pagãos são acusados de não adorar o Deus único, mas as criaturas, e de permitir essa prática sexual vista como abominação pelos judeus. Tal comportamento é considerado castigo divino por causa de uma prática religiosa errada: “Por tudo isso, Deus os entregou a paixões vergonhosas”. Outros escritos paulinos têm a mesma posição, em que prováveis referências ao homoerotismo estão ligadas à idolatria e à irreligião (1Cor 6, 9-11; 1Tim 1, 8-11). No contexto judaico-cristão da Antiguidade, este argumento era compreensível. Não havia o conceito de “orientação sexual”, estrutura profundamente enraizada na pessoa, com relativa estabilidade, levando-o à atração pelo sexo oposto ou pelo mesmo sexo. A “orientação sexual” nada tem a ver com a crença em um ou em vários deuses, ou com qualquer prática religiosa. Mas, no contexto da Antiguidade, a Igreja herdou a visão antropológica judaica da heterossexualidade universal...

Leia Mais

6. Como uma família católica deve encarar o fato de um de seus membros ser LGBT?

O papa Francisco ensina que a Igreja deve conformar o seu comportamento ao do Senhor Jesus que, num amor sem fronteiras, Se ofereceu por todas as pessoas sem exceção. Às famílias que têm filhos homossexuais, ele recorda que que cada pessoa, independentemente da própria orientação sexual, deve ser respeitada na sua dignidade e acolhida com respeito, procurando-se evitar qualquer sinal de discriminação injusta e particularmente toda a forma de agressão e violência. Deve-se assegurar um respeitoso acompanhamento, para que quantos manifestam a homossexualidade possam dispor dos auxílios necessários para compreender e realizar plenamente a vontade de Deus na sua vida (Amoris Laetitia, n. 250). Há uma bela carta pastoral dos bispos norte-americanos aos pais dos homossexuais, escrita em 1997, com um título oportuno e profético: “Sempre Nossos Filhos” (“Always our children”). Ela é inspiradora também em outros países com realidade semelhante. Os bispos afirmam que Deus não ama menos uma pessoa por ela ser gay ou lésbica. A AIDS pode não ser castigo divino. Deus é muito mais poderoso, mais compassivo e, se for preciso, com mais capacidade de perdoar do que qualquer pessoa neste mundo. Os pais são exortados a amarem a si mesmos e a não se culparem pela orientação sexual de seus filhos, nem por suas escolhas. Os pais não são obrigados a encaminhar seus filhos a terapias de reversão para torná-los heterossexuais. Os pais são encorajados, sim, a...

Leia Mais

7. A Igreja se opõe ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e à adoção de crianças por casais LGBT?

Em princípio sim, mas ninguém está proibido de mudar para melhor, nem as pessoas, nem as instituições. Para o teólogo Juan Masiá, jesuíta radicado na Japão e pesquisador de bioética, é necessário promover a acolhida de pessoas e de uniões homossexuais, bem como de famílias assim constituídas, na vida cotidiana e sacramental das comunidades eclesiais, sem discriminação. Deve-se reconhecer respeitosamente a legislação civil sobre as uniões homossexuais. É necessária uma revisão da interpretação bíblica, moral e teológica sobre a sexualidade à luz das ciências humanas, especialmente sobre a sexualidade pluriforme e as exigências educativas para uma convivência inclusiva. Não se pode afirmar taxativamente a impossibilidade de analogia, mesmo remota, entre uniões homossexuais e o desígnio de Deus sobre o matrimônio. Seria presunçoso possuir o conhecimento certo e definitivo deste suposto desígnio divino. Masiá afirma que tanto a definição do Concílio Vaticano II de união esponsal como “comunidade íntima de vida e amor” (Gaudium et Spes, n. 48), quanto a imagem bíblica de pessoas que saem de suas respectivas famílias e saem de si para fazer de duas, uma (Gn 2), permanecendo juntas ao longo de um caminho de amor e vida, prestam-se à união esponsal homossexual. A abertura à vida não existe somente ao se gerar uma nova vida como casal formado por homem e mulher, mas também quando um casal homossexual recorre legal e responsavelmente à procriação assistida,...

Leia Mais

8. O discurso da Igreja, quando é contrário às pessoas LGBT, favorece atos homofóbicos violentos?

O discurso religioso às vezes engrossa o coro de vozes homofóbicas, mesmo que se oponha explicitamente à violência. Na Igreja Católica, a doutrina contrária à homoafetividade foi abertamente contestada pelo clero de Chicago, em 2003 (ver aqui), após um pronunciamento da alta hierarquia eclesiástica contrário às uniões homossexuais. Em nome da dignidade da pessoa humana e do respeito que lhe é devido, aqueles sacerdotes criticaram o tom de tamanha violência e abuso contra gays e lésbicas, que são filhos e filhas da Igreja. Ninguém mais do que eles e elas têm sido massacrados por uma linguagem tão vil, que os demoniza. Termos como atos “intrinsecamente desordenados”, uniões “nocivas” e “graves depravações”, são um bombardeio que em muitos arrasa o respeito próprio e a auto-estima. Em lugar dessa linguagem asquerosa e tóxica, eles propõem uma abertura de diálogo que inclua a experiência vivida dos fiéis. Os sacerdotes reconhecem a bênção divina na vida de inúmeros homossexuais em seus relacionamentos. E defendem que suas vivências sejam ouvidas com respeito. Nem sempre se pode impedir que pessoas e instituições expressem convicções homofóbicas, mas se pode enfrentar estas convicções com a luz da ciência, que não considera mais a homossexualidade como doença; com a luz da fé no Deus bom, anunciado por Jesus, e com espírito profético. Jesus ensina que a lei foi feita para o homem, e não o homem para a...

Leia Mais