Autor: Equipe Diversidade Católica

Depoimento: “A Igreja somos nós”

Lembro-me bem dos passeios de carro, com meus pais, pela orla do Rio. Penso que, a partir dos 10 anos, passei a perceber que não olhava as mulheres de biquíni, mas para os homens de sunga. Toda a minha formação ocorreu num colégio religioso que venerava a figura feminina, embora fosse somente para meninos. Minha experiência religiosa, em todo este período, foi muito forte e determinante na minha vida. Nosso principal orientador era um religioso sério, firme e carismático. O afeto entre os colegas era natural e foram formados laços de amizade fundamentais para meu crescimento. Este conjunto foi importante para me ajudar a viver a vida com alegria, mas serviu, também, como cortina de fumaça para aceitar minha sexualidade. Reconheço, hoje, que a figura da mulher considerada como ser inatingível, aliado a diversos complexos de adolescência e a homossexualidade rejeitada como um mundo desconhecido; levaram-me, pouco a pouco, a uma postura assexuada. Não havia procura de prazer nem com mulheres ou homens fisicamente, nem sequer pela masturbação. Vivia com minhas amizades e temia qualquer outro tipo de relacionamento afetivo. Minha religiosidade estava presente no grupo e no meu silêncio. Meus pais cuidavam de mim generosamente, e não abordavam qualquer questão relacionada à minha sexualidade. Casei virgem, de mulher e homem, aos 24 anos. Admirava minha esposa. Ficamos casados quase sete anos e tivemos um filho. Durante este tempo...

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Depoimento: “O que é afinal viver segundo a vontade de Deus?”

Muitos “fundamentalistas cristãos” ao acessar esse blog podem pensar que é um absurdo ser gay e ser católico. Não me espanto mais em encontrar com esse tipo de pensamento, às vezes violento, quando vivemos em um mundo muito longe da proposta de amor e de fraternidade anunciada por Jesus Cristo, há mais de 2000 anos. Sou oriundo de família católica, tenho até um tio padre missionário. Mas minha vivência religiosa só se concretizou aos 17 anos, quando me preparava para receber o sacramento da Crisma. Quando cheguei a essa nova fase da minha vida eu já tinha conhecimento que eu era, como os rotulistas gostam de proclamar, “diferente”. Passei minha adolescência sempre reparando mais no torso dos meninos do que no desenvolvimento dos seios das meninas. E jamais me senti culpado por isso, porque o que eu sentia era natural, espontâneo. Apesar de viver numa casa em que era “influenciado” pela heterossexualidade dos meus pais, eu me descobria homossexual. Mas e a Igreja? O que pensa? E eis que vivenciei, a partir dos meus 20 anos, um período de grande questionamento. Tinha aprendido que Deus é amoroso, é misericordioso, é paz. E eu me pegava refletindo se esse mesmo Deus me condenaria por uma questão que era natural em mim, porém condenada pelo discurso da Igreja. No auge dessa crise existencial, já certamente desesperado com uma “pseudo culpa” que...

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1. Se a Igreja Católica condena a prática da homossexualidade, como é possível uma pessoa cristã católica ser LGBT?

Em primeiro lugar, a Igreja ensina que nenhum ser humano é um mero homo ou heterossexual. Ele é acima de tudo criatura de Deus e destinatário de Sua graça, que o torna filho Seu e herdeiro da vida eterna (Homosexualitatis problema, 1986, n.16). Como filho de Deus, na busca da verdade e do bem, convém considerar o que diz o papa Francisco. O conhecimento da verdade é progressivo. A compreensão do homem muda com o tempo, e sua consciência se aprofunda. Recorde-se o tempo em que a escravatura era aceita e a pena de morte era admitida sem nenhum problema. Os exegetas e os teólogos, como também as outras ciências e a sua evolução, ajudam a Igreja a amadurecer o próprio juízo. Como consequência, há normas e preceitos eclesiais secundários que em outros tempos foram eficazes, mas que hoje perderam valor ou significado. Uma visão da doutrina da Igreja como um bloco monolítico a ser defendido sem matizes é errada (Entrevista, 19/8/2013). Portanto, o fiel cristão deve procurar ser adulto na fé, atento às contribuições das ciências, que hoje não mais consideram a homossexualidade como doença, e ajudar a Igreja a amadurecer seu juízo. Nenhum fiel deve se encapsular em posturas intransigentes avessas à reflexão crítica e ao...

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2. Por que razão a Igreja se opõe à prática da homossexualidade?

Conforme o Catecismo da Igreja Católica, tal oposição apoia-se na Sagrada Escritura, que apresenta os atos de homossexualidade como depravações graves (Gn 19,1-29; Rm 1,24-27; 1 Co 6, 10; 1 Tm 1,10), levando a tradição a declará-los como intrinsecamente desordenados. Estes atos são supostamente contrários à lei natural, fecham o ato sexual ao dom da vida e não procedem de uma complementaridade afetiva e sexual verdadeira. Em caso algum podem ser aprovados (n. 3527). Diante disto, deve-se considerar o que diz o Concílio Vaticano II (1962-1965) sobre o correto entendimento da Sagrada Escritura. O leitor deve buscar o sentido que os autores sagrados em determinadas circunstâncias, segundo as condições do seu tempo e da sua cultura, pretenderam exprimir servindo-se dos gêneros literários então usados. Devem-se levar em conta as maneiras próprias de sentir, dizer ou narrar em uso no tempo deles, como também os modos que se empregavam frequentemente nas relações entre os homens daquela época (Dei Verbum, n. 12). Os textos bíblicos tradicionalmente citados contra a prática da homossexualidade, se forem devidamente analisados, não mais fundamental esta posição. O Concílio também diz que, na atividade pastoral da Igreja, conheçam-se e apliquem-se não apenas os princípios teológicos, mas também os dados das ciências profanas, principalmente da psicologia e da sociologia, para que os fiéis sejam conduzidos a uma vida de fé mais pura e adulta (Gaudium et Spes, n. 62)....

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3. A pessoa católica LGBT que mantenha um relacionamento está em pecado?

O Concílio Vaticano II afirma que há uma ordem ou hierarquia de verdades no ensinamento da Igreja, segundo o seu nexo com o fundamento da fé cristã. Alguns conteúdos são mais importantes por estarem estreitamente ligados a este fundamento. Outros, por sua vez, são menos importantes por estarem estão menos ligados a ele (Unitatis Redintegratio, n.11). Para o papa Francisco, esta ordem é válida tanto para os dogmas de fé como para os demais ensinamentos da Igreja, incluindo a sua mensagem moral. Nesta, há uma hierarquia de virtudes e ações. A misericórdia é a maior das virtudes. As obras de amor ao próximo são a manifestação externa mais perfeita da graça interior do Espírito. Os preceitos dados por Cristo e pelos Apóstolos ao povo de Deus são pouquíssimos. E os preceitos adicionados posteriormente pela Igreja devem ser exigidos com moderação, para não tornar pesada a vida aos fiéis e nem transformar a religião numa escravidão (Evangelii Gaudium, n. 36-37 e 43). O fiel deve ter em mente sobretudo viver o amor ao próximo e a misericórdia, e que sua conduta seja tradução destes valores. Além disso, a Igreja preza a liberdade de consciência, que é o direito de a pessoa agir segundo a norma reta da sua consciência, e o dever de não agir contra ela. Nela está o “sacrário da pessoa”, onde Deus está presente e se manifesta....

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