Autor: Equipe Diversidade Católica

Depoimento: “Carta de um gay católico ao papa Francisco”

No final de julho de 2013, vários amigos compartilharam no Facebook a notícia de que um ex-padre gay havia escrito uma carta aberta ao papa Francisco. Embora as matérias divulgadas descrevessem a carta e contivessem trechos traduzidos do original espanhol, não encontramos nenhuma tradução na íntegra. Ao ler o original, ficamos muito impressionados com a clareza e qualidade de seu conteúdo, e achamos que valia muito a pena traduzir e compartilhar com vocês o texto completo em nosso blog. Fica para a reflexão de todos nós, Igreja. Admirado e estimado Francisco: Paz e bem! Tomo a ousadia de escrever, com todo o respeito e admiração marecidos. Como milhões de pessoas, venho observando, ouvindo e acompanhando de perto sua nomeação, seus primeiros atos como papa, sua viagem à América Latina, suas belas palavras para os jovens. E, mesmo em meu atual agnosticismo, vi renovar-se minha esperança de que dentro da Igreja se torne realidade o tão esperado “aggiornamento” [“atualização”], como dito e reivindicado pelo Concílio Vaticano II. Estou feliz e comemoro o fato de que o ar fresco segue entrando no Vaticano, e de que há um longo caminho a percorrer. Pessoalmente, faço eco às suas palavras: quero “criar problemas”, “não me excluo”, eu pertenço. Quero fazer valer os meus direitos e de muitos outros que estão em situação semelhante, não vou ficar de braços cruzados. Já fui padre, pastor, partilhei...

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Depoimento: “Carta aos jovens gays da minha igreja”

Viçosa, Minas Gerais, 03 de novembro de 2013. Caros jovens gays da minha igreja, gays como eu, e católicos como eu: Hoje me senti orgulhoso de mim. Bastante. Viajei para uma cidade próxima à minha, para participar de um encontro celebrado anualmente pela pastoral de que participo em nossa Igreja, e fui carregando na bolsa uma bandeira do arco-íris e um pouco de ousadia. Meu objetivo era fazer uma “intervenção”: exibir comigo a bandeira durante as atividades, tentando provocar alguma reflexão sobre a nossa existência, sobre a nossa identidade de gays e cristãos, que as pessoas costumam ver como ambígua. Não foi uma tentativa de alfinetar ou desrespeitar o espaço, como alguém pode vir acusar. Estar lá, com a minha bandeira, não agredia a fé de ninguém. Fiz o que fiz por ver que ainda temos muitos silêncios a serem quebrados. A maior violência que nos atinge é uma invisibilidade que toma proporções muito significativas em uma instituição que só fala do sexo quando é para proibi-lo. A consequência disso é que muitos de nós, se em algum momento achamos que Deus nos odeia, ainda precisamos enfrentar tudo com a sensação dura de que estamos sozinhos – ainda que existam outras pessoas entre nós vivendo os mesmos dramas, ou pessoas que já tenham passado por eles e possam nos ajudar a superá-los. Romper esse silêncio sempre foi uma questão...

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Depoimento: “Um Deus completamente diferente”

Celebramos a Imaculada Conceição de Maria como o mistério de Deus que irrompe na humanidade no lugar mais insuspeito e da forma mais inusitada: Maria, uma mulher pobre, analfabeta, da periferia da Galiléia, mulher, semelhante a tantas de nosso tempo, envolta em suas tarefas e afazeres diários, longe dos lugares-comuns de teofanias extraordinárias, recebe uma visita de Deus. E de repente, abre-se para a história humana uma nova perspectiva, oposta ao simbolismo de Adão e Eva no Antigo Testamento: de agora em diante, pela resposta positiva e livre daquela pobre mulher, mulher pobre, a humanidade pode vislumbrar novas perspectivas. As portas da glória de Deus, enfim, se abriram para a humanidade. O lugar, a pessoa, as circunstâncias, o momento…nada no relato de Lucas condiz ao paradigma de um Deus triunfante, senhor dos exércitos, que vem restaurar a gloriosa monarquia de Israel. Ao contrário, vislumbra-se um Deus pequeno, fraco, indefeso, cuja proposta subverte o que se espera das teologias de então. Eis a grande novidade do Evangelho: propõe uma constante revisão de nossas teologias, nossos dogmas mais profundos, nossas formas de ver a Deus, de ver a realidade a partir de Deus. Como católicos LGBTT’s, nossa contribuição com a Igreja é justamente no caminho que Lucas propõe no relato da anunciação: enquanto seres humanos plenos em dignidade e direitos, ocupamos nosso lugar dentro da igreja, a comunidade dos discípulos de...

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Depoimentos: “Dicotomias, lutas, fé e amor: gays versus Igreja?”

Certa feita, uma amiga comentava sobre as crises possíveis na cabeça de homossexuais religiosos. Se a sociedade diz que a homossexualidade é anormal, a religião diz que é errado, que é pecado… Todo mundo pode se sentir no direito de fugir da normalidade, se for esse o caso (não é esse o caso). Mas fugir do que é certo tem efeitos piores. A carga do “anormal” pode até ser suportada (quem disse que estou a fim de ser “normal”?), mas a carga do “errado” pesa. E enquanto seguem essas dicotomias extremistas, esse jeito limitado mesmo de enxergar as coisas, seguem cristãos e homossexuais massacrados dentro de sua própria consciência, sem liberdade, sem vida, sem fé, sem amor. Os paradigmas ainda atrasados que as igrejas oferecem são um grande desafio para a luta LGBT, para as saídas do armário, para o fim da homofobia. Mas disso, todo mundo sabe. Preciso falar diferente.Se as igrejas ainda erram ao tratar dos gays, o movimento ainda erra ao tratar da igreja. Vício de tantos grupos que se articulam em torno de várias causas, temos a mania de personificar as lutas em torno de um inimigo só. Muitas vezes, o nosso debate sobre homofobia soa como se desejássemos acabar com as religiões (especialmente com o cristianismo) para ter, enfim, tudo muito resolvido. A matriz religiosa da formação da nossa sociedade meio que já limitou...

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Depoimento: “Dores e amores da homossexualidade”

Enquanto homossexual não saberia dizer se a homossexualidade nos faz mais sensíveis. Penso que na condição de seres humanos vivemos num mundo diverso, pronto a ser descoberto na sua riqueza existencial infinita. Por isso, seria importante que estivéssemos sempre sensíveis a tudo que nós rodeia. Sou daqueles que acreditar que sensibilidade também se aprende. Mas, talvez, aqueles que, por algum motivo, não são desejados pela sociedade tentem a criar um mundo particular e, neste mundo, vivem seus sonhos e pesadelos, tentando, de algum modo, encontrar a forma como aparecer no mundo concreto sem precisar sofrer muito. Enquanto permanecemos no mundo particular ganhamos tempo para nos compreender internamente. Percebo que nesta experiência ganhamos em sensibilidade na medida em que é preciso criar pequenos modos de felicidade. Lembro-me, por exemplo, da minha infância na qual por não poder brincar com bonecas eu pedia aos meus pais lápis de cor e muitas folhas para poder desenhá-las e, assim, me divertir com elas no meu imaginário. Deste modo, eu fui desenvolvendo a sensibilidade para as cores. Também comecei a prestar atenção às bonecas para poder reproduzi-las, em detalhes, no papel. Enquanto as outras crianças já tinham o seu brinquedo pronto, eu era desafiado a aguçar as minhas capacidades perceptivas e criativas. E quanto mais eu desenhava e melhorava o meu traço, apesar de muitos estranhamentos por parte das pessoas por eu só reproduzir...

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