Ser católico e ser gay. Não tenha dúvidas:
Perguntas freqüentes   Nosso ponto de vista
Opinião Bibliografia   Links relacionados
Sob a perspectiva
da Igreja
 
 
Partilhando a vida:
Vivências
Cadastre-se
 
  Partilhando a vida:  
 
 
Vivências  
 
 
 

A experiência partilhada fomenta comunhão. Este espaço está aberto para expressar vivências que testemunhem à inclusão de todos no Povo de Deus.

Envie seu texto com até 20 linhas para o e-mail contato@diversidadecatolica.com.br e ele poderá ser publicado.

“Tenho estado toda a minha vida na Igreja Católica. 

Por muito tempo, fui intransigente e estritamente radical nas minhas opiniões, que, de fato, não eram minhas, mas reproduções de tudo o que ouvia dos padres, dos mais antigos nos movimentos que participei e também daquilo que lia no Catecismo sobre questões morais e sociais. Estas eram mais fortes e mais seguidas à risca que as próprias verdades de fé.

Nunca havia parado para refletir em tudo o que lia e ouvia das autoridades dentro da religião até que me percebi ‘diferente’ e soube de amigos íntimos que estes também eram como eu – um ‘diferente’ no meio dos supostos ‘iguais’.

Ora, se nós que sempre doamos todo nosso potencial para a Igreja e éramos tidos como referência aos demais jovens da comunidade nos percebemos de tal forma –  homossexuais, bissexuais –  ainda continuávamos a amar e partilhar e a ser imensamente abençoados por Deus, apesar da nossa escolha em termos um relacionamento com outros como nós, algo de incoerente havia naquela repulsa constantemente pregada, na maior parte das vezes de maneira velada, mascarada, que só nós mesmo entendíamos e que nos fazia sofrer, por sabermos que se tratava de um ‘povinho’ (como diziam) ao qual pertencíamos.

Nesse momento, se iniciou uma jornada de negação, compreensão, reflexão e, finalmente, aceitação. Deus tem me feito feliz da maneira que sou. Começo agora a ver todo estudo teológico sobre a questão da homossexualidade com mais discernimento. Nada daquilo que poda, oprime ou desvia o ser humano do caminho que grita seu coração pode ser condizente com as palavras de Cristo: ‘Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará’. A Ele, que me libertou da auto-condenação, honra e glória!

Amém.”

Pedro, Brasília

“Sou católica e hoje, mais do que nunca, me orgulho disso.

Em especial por que pude compreender a ação amorosa de Deus em minha vida por meio do grupo Diversidade Católica.

Na adolescência, aos 14 anos, optei por fazer a primeira comunhão. Tive uma breve passagem por paróquias próximas de casa e, desde então, já me sentia diferente dos demais jovens dos grupos pelos quais passava.

Talvez uma ação espontânea pela convivência e diferença foi me levando para fora do grupo, uma vez que esta diferença não seria corrigida. Assim como os meninos, eu também queria namorar meninas.

Esse afastamento poderia partir de uma tal ação espontânea ou do princípio de uma discreta homofobia que naturalmente foi me “expulsando” para fora do circulo católico.

Tentei participar de vários grupos, mas não consegui permanecer em grupo algum. Na minha compreensão de então, o que me afastava de Jesus era simplesmente o fato de ser quem sou – Ele não me acolheria por isso.

Naquela época, a homossexualidade era algo que me direcionava para o inferno e minava a relação de amor com o meu Senhor.

Procurei em outras religiões, de forma desenfreada, um Deus de amor que eu sabia existir, uma Nossa Senhora que me foi apresentada ainda na infância por minha mãe e que amava com amor de filha.

Passado algum tempo, tive a sensação que minha direção religiosa não era por ali e ao mesmo tempo outra sensação que era perturbadora. Não compreendia ao certo. Pois aquele mesmo Deus de amor odiava-me na Igreja Católica.

Foram anos de busca até deparar-me com um novo grupo católico que me fez sentir o amor e a presença viva e contínua de Jesus. Me fez retornar para casa.

Anos a fio fui assídua no grupo. Participava tanto na música quanto nas pregações e eventos da Paróquia. Fiz muitos retiros e, a médio prazo, percebi que a relação com aquele Deus lá do início ia de vento em polpa.

Minha mãezinha querida parecia estar próxima outra vez. A missa e a comunhão voltaram a ser um hábito e tudo estava perfeito.

Bom demais para ser verdade... Tudo seria perfeito se eu mantivesse a castidade e continuasse orando, pedindo a cura para minha suposta doença e se não sentisse falta de alguém para me relacionar ou mesmo vencesse o desafio da solidão. Quem sabe até se me tornasse religiosa, como cheguei a pensar naquele momento.

Nesta tentativa de vida – que durou cerca de sete anos – terminei por ter relação amorosa com uma moça também católica. Nós nos amávamos, mas era impossível suportar a nossa própria pressão além das outras que já conhecia. Fomos acolhidas por alguns padres e por outros, nem tanto. Nosso relacionamento terminou e eu continuei firme acreditando, ainda assim, numa provável cura.

Nada acontecia e, cada vez mais, me sentia frágil e diminuída por não ter fé o suficiente e vencer aquele “problema”. Ouvia sempre nas homilias e pregações que a homossexualidade era uma opção de perversidade, uma doença que tinha cura, bastava querer e ter fé.

Sendo assim, me distanciei da Igreja mais uma vez, agora decidida a não voltar.

Foi quando encontrei o grupo Diversidade Católica e compreendi que Deus é somente amor, não é perverso nem preconceituoso.
Tenho a compreensão que Ele me ama e nunca vai desistir de mim. Mesmo na confusão em que vivia, agora sei que Ele sempre esteve próximo me amando de forma incondicional.

Isto reflete na minha vida de maneira bastante importante. Hoje tenho uma diferente posição diante da sociedade e das pessoas com quem convivo. Não me sinto mais diminuída por ser gay e muito menos se mantiver um relacionamento.
O tempo vai me tornar mais forte, em especial se continuar mantendo contato com pessoas de realidades próximas e engrossar a fila dos que buscam respeito e direitos.
Fico imensamente feliz em saber que essa discussão vem ganhando corpo dentro da Igreja Católica e que há pessoas pensando na tentativa de tornar fato o que eu sempre sonhei.
Quero continuar servido a Deus na minha Igreja, ajudando na construção do reino do Senhor. Amém.”

Diva, Rio de Janeiro

“Um dos principais desafios que a vida pode nos trazer é a descoberta de ser gay.

Ainda criança se deparar com um forte sentimento de atração por outros homens nos faz vivenciar o medo da descoberta e o temor do abandono.

Angústias e choros se misturam a sentimentos de vergonha e culpa que nos fazem recorrer a Deus para que Ele nos livre desse destino.

E como Deus está sempre presente em nós, seja na figura de Jesus Cristo, seja na benevolente e sempre amada Mãe Maria, Ele nos escuta, não da forma como acreditamos que seríamos mais felizes, sendo algo que não somos, mas na forma de aceitação de nossa própria orientação sexual.

Passamos a aceitar a nossa própria vida, a sermos autênticos e a lutar interna e externamente pelo direito a sermos o que somos verdadeiramente, o que existe no mais íntimo em nós mesmos.

É claro que não é fácil. Os desafios, que se modificam, tornam-se estímulos para continuarmos com nossa luta. E a busca pelo desenvolvimento espiritual nos possibilita estar imersos em um amor incondicional que acalma e faz perceber que nada é mais importante do que sermos autênticos com as outras pessoas e principalmente com nós mesmos.

Marcus, Brasília

“Ser gay (bicha, viadinho ou mona) aos 30 anos e continuar sendo católico parece ser contraditório. E o é! Adoro as contradições. Foram padres e freiras contraditórias que me motivaram a perseverar na fé. O que temo é a incoerência, a incoerência da hipocrisia de se dizer ser o que não se é.

A tentativa de tomar como lema ‘A verdade vos libertará’ é um desafio muito grande, que não tenho enfrentado sozinho.

Imagino que, se todas as pessoas não heterossexuais saíssem da igreja católica, ela perderia a sua identidade. Há muita gente, dentro ou fora do armário, que faz a oração falar mais alto do que o que se lê e escreve lá em Roma. Há também aqueles cristãos e cristãs que não se libertaram, e acham que estão protegidos nos seus discursos e defesas homofóbicas de que nossa capacidade de amar e desejar é apenas uma.

Aprendi, depois que a culpa foi embora, que a nossa maior fragilidade é não reconhecermos os nossos desejos, porque assim estamos vulneráveis aos desejos dos outros, que, quase sempre, não são os nossos, graças a Deus!

A Igreja de Cristo não tem o direito de ser preconceituosa, nem de se pautar em uma leitura fundamentalista das experiências bíblicas para se manter no poder e legitimar formas de amor, desqualificando outras.

Eu não tenho vocação para a castidade ou a vida celibatária. A minha sexualidade é um dom, e por isso, como a Igreja me ensinou, não posso deixar de vivenciá-la, em plenitude, com tudo o que devo e tenho direito. Fazer sexo com um homem, sendo homem, é tão bom como deveria ser o sexo entre minha mãe e meu pai. Tudo isso é vocação.

Sou chamado a me ver e me perceber como um projeto de santidade em processo, como tantos outros fiéis. O sexo (publicamente defendido, prazeroso, criativo, não possessivo, não heterossexual e não procriativo) é uma parte deste processo, como a vida comunitária, a participação litúrgica, o engajamento político, e assim por diante.

A promessa de vida em abundância defendida pelo Cristo é para mim e para você. Como Ele, nós todos deveríamos lutar pela vida, ainda que por caminhos tidos como ‘pecaminosos’, mas que sabemos ser tão saborosos, transcendentes e especiais.

Desconfie de tudo o que lhe falaram sobre homossexualidade. Por medo de pecar, muitos deixam de se encontrar. Como sabemos, somos tentados a partir de palavras bonitas, a nos perder de nós mesmos.

Faça como o Cristo entre os pobres, se descubra em meio a aquilo que é apontado como ‘desumano’, ‘abjeto’, ‘pecaminoso’. Enfrente o seu desejo, e exercite a sua sexualidade. Empodere-se do seu corpo, que por sinal, como nos ensinaram os antigos padres, é templo do Espírito Santo, o lado feminino de Deus.”

Tiago, Campinas (SP)

“Sempre fui católico. Nasci em uma tradicional família católica nordestina, com 7 padres e 10 religiosas.

A culpa por ser gay me acompanhou por muitos e muitos anos. Na tentativa de 'vencer' meus sentimentos, exagerei nas penitências: dormir no chão, tomar banho frio, fazer jejum. Não bastasse a pesada carga que trazia nos ombros, resolvi entrar para o movimento Opus Dei.

A carga cresceu, a culpa triplicou e eu já não encontrava forças para lutar contra o sentimento de amar um homem. Para me livrar de tal pesadelo, fiz muitos retiros inacianos, carmelitas, adoração ao Santissímo... até que um dia, cansado de lutar, resolvi me aceitar.

Não pedi para ser como sou. Não pedi para ter os pais que tenho. Não pedi para ter os belos olhos castanhos que tenho. Percebendo o quanto Deus me dotou de qualidades, entendi que a minha homossexualidade não pode ser o ‘terrivel espinho na carne’ de que São Paulo fala. Mas, ao contrário, é a bela criatura para a qual Deus olhou apaixonadamente e disse: ‘é obra das minhas mãos... é minha imagem e semelhança’.

Sou feliz como sou: gay e católico."

Cesar, Zaragoza (Espanha)

“Quando saí do armário, tive uma ótima experiência com um padre católico, da minha paróquia (minha mãe meio que me obrigou a procurá-lo).

Ele me acolheu super bem, dizendo que eu não tivesse vergonha de ser gay e que não havia impedimento algum para que eu comungasse.

Ele disse que, infelizmente, a cúpula da Igreja ainda é muito conservadora, mas que MUITOS padres, hoje em dia, já estão encarando a homossexualidade com mais naturalidade.

Hoje meu problema é outro (profissional), mas o fato de ter me resolvido quanto a sexualidade/afetividade, já me aliviou bastante.”

Eduardo

“Outro dia, antes da missa, fui perguntar ao padre se fazia sentido eu pedir alguma coisa a Deus. Estava tenso, em época de provas. Costumava recorrer a Deus para me safar de enrascadas ou até mesmo para que o ônibus passasse mais depressa.

Ele me disse que sim, mas seria preciso observar minha atitude no momento de pedir. Entendi que colocar-me humildemente diante de um Poder Superior dá a dimensão do meu real tamanho. Posso me lembrar que o resultado das minhas ações foge ao meu controle, não está nas minhas mãos. A contemplação da infinitude de Deus dá a medida dos meus limites – o que me faz tanta falta!

Esta atitude de humildade é a chave para abrir o caminho à passagem da Graça Divina. Ela já está aí, em toda parte. Eu preciso apenas me abrir para recebê-la.

Nesses momentos de tensão – o trabalho não me deu folga para estudar, pelo contrário! – costumo sentir um aumento especial da minha libido. É! Ela ainda consegue ser mais exacerbada!

Os mecanismos desenvolvidos à custa de alguma maturidade, adquirida com suor nesses últimos anos, me acendem luzes e dão sinais de que esta libido exagerada é válvula de escape a pressões de outra natureza. Eles me avisam: ‘Atenção, Arnaldo! Faça suas escolhas conscientemente’. Hoje já consigo me dar conta disso – às vezes.

Meu desejo não se dirige ao gostosão ao lado, ou pelo menos não especialmente a ele. Trata-se de um desejo sem direção, sem forma. Um desejo difuso pelo ônibus lotado, pelo coletivo do vagão do metrô. Desejo de fundir-me com o Todo. Um desejo sem limites, ou melhor: desejo de romper os limites.

Aprendi desde criança a contrapor sensualidade à espiritualidade. Aos 12 anos minha libido explodia incontrolável e dei-lhe logo um apelido: bleura. Eu a identificava como uma febre que me demandava nudez e despudor. Aos 16, buscava defesa no evangelho: alimento espiritual para aliviar as pressões do corpo. Vivi esta dicotomia absoluta até os 18, quando os clamores da bleura me pareceram mais fortes que a sede do espírito. A absoluta inadequação de meu desejo – preferencial por outros homens – aos padrões morais da igreja em que ainda me encontrava inserido me atiraram mais inteiramente ao ‘outro lado da fronteira’.

Inconscientemente, passei a inverter o processo: tentava abafar os clamores do espírito tentando atender aos insaciáveis apelos do corpo. Daí a tal busca pela fusão, pela supressão dos limites.

Voltando à missa de domingo: o padre comentou alegremente minha persistência. Eu disse que devagarzinho estava tentando me reaproximar da Igreja. Ele respondeu que o importante era me aproximar de Deus! Hoje, se tentasse justificar minha adesão intelectualmente, confesso que não resistiria às primeiras interpelações. Quando venho à Igreja, sou tomado pelo poder dos ritos, pela experiência mística da missa.

A idéia de promovermos uma pescaria no discurso oficial da Igreja atrás de brechas ou talvez de deslizes que justifiquem ou autorizem a participação dos gays pode ser interessante e útil, mas francamente pouco me interessa. Nem mesmo parece me dizer respeito. A experiência libertadora, transformadora e radical do cristianismo passa longe da dicotomia corpo x espírito, ou da repressão sexual.

Ainda não me sinto “dentro” da Igreja, mas, do sentimento de exclusão que me aprisonou em uma parodoxal busca de prazer imediato, já me sinto livre.  E isto não quer dizer que tenha aberto mão da minha dimensão sensual homoerótica.”

Arnaldo, Rio de Janeiro.