Ser católico e ser gay. Não tenha dúvidas:
Perguntas freqüentes   Nosso ponto de vista
Opinião Bibliografia   Links relacionados
Sob a perspectiva
da Igreja
 
 
Partilhando a vida:
Vivências
Cadastre-se
 
  Ser católico e ser gay. Não tenha dúvidas:  
 
 
Perguntas freqüentes  
 
 
 

1.Se a Igreja condena a homossexualidade, como é
   possível uma pessoa gay ser católica?

Antes de responder esta complexa pergunta, é importante distinguir com clareza alguns termos.

Você sabe exatamente o que quer dizer a palavra Igreja? Quando se fala em Igreja não se pode pensar apenas no Papa, nos bispos e no clero.

Igreja é uma realidade múltipla, plural, que abarca desde a criança que acaba de receber o sacramento do batismo até Bento 16 ou o bispo de sua cidade. É todo o povo de Deus que acredita em Jesus, o Cristo, e procura viver de acordo com a vida dele.

Portanto, dizer que a Igreja não aceita as pessoas homossexuais é generalizar.

Essa afirmação costuma remeter à posição dos documentos oficiais que abordam a questão. Mas há outros posicionamentos possíveis. Veja o nosso grupo Diversidade Católica, por exemplo. Temos a imensa alegria de seguir Jesus Cristo e compreender que, por ser diversa, a Igreja acolhe as diferenças humanas.

Importante também você compreender o significado do termo Magistério quando usado no contexto eclesiástico, bem como algumas de suas atribuições.

Magistério da Igreja se refere à função e autoridade próprias da hierarquia (Papa e bispos).

O Magistério recebeu de Deus o carisma para interpretar a fé viva da Igreja. Em linguagem teológica, é o responsável por acolher todo dado de fé que surge a partir do encontro entre uma situação nova e a Revelação divina.

O Magistério deve acompanhar a imensa comunidade dos que crêem, guardando aquilo que é fundamental e não pode se perder nas contínuas mudanças que as sociedades enfrentam com o passar do tempo. Ou seja, o Magistério exerce o discernimento para manter a comunidade de fé no caminho reto de Cristo.

O povo de Deus é chamado a reconhecer o Magistério como autêntico intérprete da Tradição e acolher com “religioso respeito” (Constituição Dogmática Lumen Gentium 25) e “assentimento de fé” (idem) o que é proposto.

Colocados estes dois importantes termos – Igreja e Magistério – voltemos à pergunta colocada.

A abordagem da homossexualidade nos documentos magisteriais parece indicar que uma pessoa gay só pode ser católica se optar por viver no celibato.

O estado de permanente comunhão com toda a Igreja faz com que o católico esteja sempre aberto a acolher os pronunciamentos oficiais.

Mas é preciso aqui lembrar que o próprio Magistério já nos ensinou que só há um caso em que a vinculação entre doutrina e acolhimento é total: o Dogma.

O Dogma, ou pronunciamento “ex Cátedra” , é o grau máximo a que uma doutrina ou posição moral pode ser elevada, tornado-se definitiva na compreensão da Igreja.

A existência de um grau máximo e definitivo de adesão à doutrina indica que nem tudo tem a mesma obrigatoriedade e permanência.

Por exemplo, o caso da salvação. Já foi expresso como doutrina que os de fora da Igreja Católica não poderiam se salvar. Foi doutrina, mas não se mostrou definitiva. O Concílio Vaticano II gerou documentos que abrem a perspectiva da salvação para os que crêem em Cristo, mas não na comunhão da Igreja católica; para os que crêem em Deus, mas não no Cristo; e até para os que não crêem em Deus, mas vivem de acordo com os valores retos da sua consciência.

Outro aspecto a considerar é o fato do Magistério da Igreja não ocupar posição absoluta.

O Vaticano II reconhece que cada ser humano deve antepor qualquer dever ou lei à sua própria consciência. “A consciência é o núcleo mais secreto e o sacrário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser”, diz o parágrafo 16 da Constituição Dogmática Gaudium et Spes , um documento deveras importante do Concílio – o próprio título “Constituição Dogmática” já mostra a importância do texto.

O documento citado indica que a mediação plena para a ação do homem é a sua consciência. Obedecer à consciência é o que se pode fazer de melhor para agradar a Deus.

É claro que uma consciência inadequadamente formada pode acolher qualquer conceito como verdade, seguindo apenas critérios de conveniência. A própria Gaudium et Spes nos adverte, ainda no parágrafo 16: “Não raro, porém acontece que a consciência erra, por ignorância invencível, sem por isso perder a própria dignidade. Outro tanto não se pode dizer quando o homem se descuida de procurar a verdade e o bem...”

Por isso a obrigação de todo católico e, de modo geral, de todo ser humano é buscar formação e desejar a verdade. Quando a pessoa procura confrontar-se sem medo com o que é dito e, mesmo assim, percebe que sua consciência indica um caminho distinto, ela “não deve ser forçada a agir contra a própria consciência” – aponta outro documento importante do Concilio Vaticano II, a Declaração Dignitatis Humanae.

É ainda preciso considerar que o Magistério realiza sua missão de discernimento da doutrina e dos costumes morais baseado nos diversos elementos que compõem a Igreja:

a Tradição oral e escrita (Sagrada Escritura);
as posições do Magistério e dos Doutores da Igreja que compõem a tradição eclesial;
o senso comum dos fiéis: a sensibilidade do povo de Deus para assuntos que digam respeito à fé, já que o Espírito Santo é derramado e age em toda a comunidade dos crentes.

Se o discernimento levado a sério gera , ainda que lentamente, uma maior abertura quanto à compreensão da situação e dos anseios das pessoas gays (não por malévola propaganda organizada, e sim como fruto do que as ciências humanas vêm afirmando sobre a condição homossexual), há de se esperar reflexos no Magistério.

Os documentos recentes podem trazer formulações que julgamos não traduzir adequadamente a maneira como as pessoas gays compreendem o seu amor. Mas, considerando o conjunto de pronunciamentos oficiais que abordam a questão, é possível perceber pequenos avanços – ainda que prejudicados com o uso de expressões negativas muito fortes. O site Diversidade Católica reúne alguns textos importantes.