Ser católico e ser gay. Não tenha dúvidas:
Perguntas freqüentes   Nosso ponto de vista
Opinião Bibliografia   Links relacionados
Sob a perspectiva
da Igreja
 
 
Partilhando a vida:
Vivências
Cadastre-se
 
  Ser católico e ser gay. Não tenha dúvidas:  
 
 
Bibliografia  
 
 
 

"O ranço moralista"

Há no cristianismo uma tradição multissecular de proibição, medo e culpa. Um historiador fala de uma “pastoral do medo”, ou seja, o recurso a proibições e ameaças para se obter a conversão.

A viagem do papa Bento XVI à Alemanha acabou marcada por uma enorme polêmica com o islamismo. Entretanto, ele deu uma importante entrevista à televisão alemã pouca semanas antes. Aí encontramos elementos valiosos para a vida da Igreja e para o diálogo com a sociedade contemporânea. Eles não devem cair no esquecimento. O papa tratou de sua visita à Espanha e de temas polêmicos. O padre von Gemmingen, da Rádio Vaticano, disse a Bento XVI que em Valença, no Encontro Mundial das Famílias, ele não fez nenhuma referência às uniões homossexuais, nem tratou de aborto ou de contracepção. A conclusão dos observadores é de que a intenção do pontífice é anunciar a fé e não girar o mundo como “apóstolo da moral”. E perguntou o que ele pensava desta avaliação.

Com um sorriso aberto, o papa respondeu que na ocasião dispunha de pouco tempo para falar e, nessas condições, não se deve começar dizendo “não”. É preciso afirmar o que se quer. E acrescentou: “o catolicismo não é um conjunto de proibições, mas uma opção positiva. E é muito importante que evidenciemos isso novamente, porque essa consciência, hoje, desapareceu quase que completamente”.

Alguns vaticanistas de fato notam um tom moderado no discurso de Bento XVI em questões morais que contrasta com o de seu antecessor, bem como com suas próprias posições quando prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé sob as ordens de outrem. Todavia, muitos ainda o vêem como intransigente e tudo interpretam sob este prisma distorcivo.

No ano passado, ao receber uma delegação de bispos africanos, ele afirmou que o ensinamento tradicional da Igreja é o único caminho intrinsecamente seguro para se evitar o HIV. E alertou para o perigo de uma mentalidade antinatalista. Difundiu-se então a notícia de que o papa condenara a camisinha. Ora, defender uma conduta sexual baseada no autodomínio e na fidelidade não é opor-se totalmente ao preservativo. O papa possui um conselheiro teológico particular, da Casa Pontifícia. Na época era o cardeal Georges Cottier. Este cardeal havia declarado publicamente que em algumas circunstâncias o uso da camisinha é legítimo, sobretudo em epidemias generalizadas e devastadoras, como é o caso da África. Aí vale o mandamento de “não matar” e se deve respeitar a defesa da vida acima de tudo.

Mesmo na Espanha, quando o papa afirmou o valor central da família “fundada sobre o matrimônio indissolúvel do homem e da mulher”, alguns entenderam como uma condenação do casamento gay. Ora, exaltar a união heterossexual não significa exortar uma pessoa homossexual a se casar com alguém de outro sexo. Até porque, para o direito eclesiástico, este matrimônio é nulo.

Tudo isto não significa que a moral da Igreja mudou, mas que há uma nova impostação, um outro tipo de convivência com a sociedade secular. A entrevista de Bento XVI sugere ainda mais questões: o que fez o catolicismo ser visto hoje como um conjunto de proibições? Por que a consciência de que ele é uma opção positiva quase desapareceu?

Há no cristianismo uma tradição multissecular de proibição, medo e culpa. Um importante historiador fala de uma “pastoral do medo”, ou seja, o recurso a proibições e ameaças para se obter a conversão. Mas não só no passado distante. Também no presente, muitos interpretam a doutrina da maneira mais restritiva e condenatória possíveis, com obsessão pelos pecados, sobretudo aqueles ligados ao sexo. E para isso usam insistentemente o púlpito e a mídia. Vêem por toda parte demônios e inimigos de Cristo, ativos e atentos. No carnaval, chegam ao cúmulo de alertarem para a ira divina na iminência de fulminar a humanidade com uma catástrofe, por causa de sua licenciosidade. O resultado acaba sendo o descrédito e o afastamento de pessoas lúcidas, bem como o desnecessário tormento de tantas consciências. Gasta-se uma enorme energia inutilmente, perde-se o foco de tantas coisas importantes e muitas chances de se fazer o bem.

Felizmente, há também exemplos de opção positiva. Temos a figura de d. Luciano Mendes de Almeida, ex-presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), de saudosa memória. Com sua imensa generosidade, grande inteligência e criatividade, teve a palavra lúcida e a ação construtiva. Oxalá Deus nos liberte do ranço moralista e ajude o papa neste feliz propósito.

E-mail do autor: lclima1962@gmail.com