| Gays, Psicologia e Sacerdócio
Adital - 04.12.08
O Vaticano lançou recentemente orientações sobre o uso da psicologia na admissão e na formação de candidatos ao sacerdócio. Isto gerou protestos de entidades que promovem a cidadania e defendem os direitos de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais. Estas entidades expressam indignação por entenderem que se trata de uma atitude discriminatória, onde a avaliação com exame psicológico tem em vista rejeitar os candidatos identificados como homossexuais. Cabe, portanto, fazer algumas considerações sobre tais orientações e o que diz respeito à homossexualidade.
É sempre preocupante a possibilidade de discriminação em um mundo marcado pela homofobia, onde há homicídios, prisões, agressões físicas e verbais, e diversas formas de aversão a pessoas homossexuais. A constante vigilância é necessária para a construção de um mundo sem discriminação.
O documento das orientações já está disponível em português . Ele visa antes de tudo a formação para o sacerdócio, compreendida como uma configuração ao Cristo, bom pastor. Nesta formação, deseja-se cultivar motivações espirituais e a buscar um equilíbrio humano e afetivo, para que haja liberdade interior na relação com os fiéis, em uma vida celibatária. O uso da psicologia através de testes e de psicoterapia é recomendado em certas circunstâncias mas não é obrigatório. Ele é feito apenas com o consentimento do candidato e nunca contra a sua vontade. Também a divulgação de resultados aos formadores só ocorre com o livre consentimento do formando.
A homossexualidade é explicitamente mencionada no caso em que o candidato mostra: “incapacidade de enfrentar de modo realista [...] tendências homossexuais fortemente enraizadas”. Aí a formação deve ser interrompida, como também se alguém tiver forte dificuldade com o celibato, “vivido como uma obrigação tão penosa a ponto de comprometer o equilíbrio afetivo e relacional” (nº10).
Note-se que a orientação homossexual não é a causa do afastamento, mas a incapacidade de se lidar com ela de maneira adequada. E o celibato - seja para quem for o candidato - não deve ser vivido a qualquer preço, sacrificando-se o equilíbrio emocional. Este importante princípio deve valer também para a vida religiosa e para os fiéis leigos.
A última palavra sobre a ordenação cabe ao bispo local ou ao superior religioso, depois de ouvir os encarregados da formação. Em 2005, outro documento do Vaticano tratou especificamente de candidatos ao sacerdócio com orientação homossexual. Nessa ocasião, alguns bispos e o antigo superior geral dos dominicanos se manifestaram de maneira bastante favorável a estes candidatos . A Conferência dos Bispos Suíços fez o seguinte pronunciamento:
“Nós somos profundamente gratos a todos os padres que vivem sua vocação com grande fidelidade. Nós temos consciência que em nosso colégio presbiteral e nos nossos seminários vivem co-irmãos com orientação heterossexual e outros com orientação homossexual. Nós respeitamos cada um como homem e co-irmão. Nós decidimos viver a castidade independentemente de nossa orientação sexual. Por isso, no âmago de nossas reflexões sobre o acesso ao sacerdócio, não há questão de orientação sexual, mas a disponibilidade de seguir Cristo de maneira coerente” .
O risco de homofobia sempre existe nas interpretações restritivas demais, desfavoráveis aos gays, que se derem aos documentos eclesiásticos. Isto pode acontecer tanto dentro quanto fora da Igreja. Dentro, por segmentos ultraconservadores; e fora, por uma crítica exagerada ainda que com intenções libertárias. Ambos propagam a mesma afirmação injusta: ‘para a Igreja, gay não pode ser padre’.
Uma perspectiva mais aberta, como a dos bispos suíços, aponta para um cristianismo inclusivo, sem discriminação. O sacerdócio celibatário de gays e héteros, vivido com liberdade e generosidade, é também uma maneira de se contrapor ao modelo heterossexista hegemônico, da prática heterossexual compulsória. É aí que se encontra a raiz da homofobia. Para enfrentá-la, deve-se reconhecer e respeitar a mais ampla e legítima diversidade no campo da sexualidade. E assim se pode encontrar os caminhos do Cristo, bom pastor.
|