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Os gays e o acesso ao sacerdócio

Pe. Luís Corrêa Lima, S.J.

Um documento do Vaticano publicado no final de 2005 gerou controvérsia. Trata-se de normas da Congregação para a Educação Católica sobre os candidatos ao sacerdócio com orientação homossexual. O cardeal Zenon Grocholewski assina o texto.Em entrevista posterior, ele considera inoportuno ordenar tais candidatos, ainda que haja sacerdotes de conduta exemplar com tendências homossexuais. O assunto em si é algo interno da Igreja, mas ele ultrapassa este limite por implicar uma imagem da pessoa gay, o que tem conseqüências éticas.

Alguns louvaram a medida por terem o mesmo entendimento do cardeal. Outros se opuseram, julgando que o Vaticano quer combater os recentes escândalos de abuso sexual punindo os gays. Tais escândalos, argumentam, também têm vítimas meninas e mulheres, e não se questiona a admissão de heterossexuais ao sacerdócio .

Segundo o documento, compete à Igreja definir os requisitos necessários para a ordenação e chamar os que ela julgar qualificados. Convém lembrar que o sacerdócio católico, com exceção dos ritos orientais, é reservado aos que se comprometem a viver o celibato. O candidato ao sacerdócio deve atingir a maturidade afetiva que o torne capaz de estabelecer uma correta relação com homens e mulheres. E com esta maturidade, desenvolver uma paternidade espiritual em relação à comunidade que lhe será confiada. Cabe ao bispo ou ao superior religioso chamar às ordens, depois de ouvir os encarregados da formação.

Quanto aos homossexuais, diz o texto, deve-se evitar em relação a eles qualquer forma de discriminação injusta. Mas não devem ser admitidos ao seminário e nem ordenados os que “praticam a homossexualidade, apresentam tendências homossexuais profundamente enraizadas ou apóiam a chamada cultura gay ”. No caso destas tendências resultarem de um problema transitório, elas devem ser superadas pelo menos três anos antes da ordenação diaconal.

A compreensão de um documento deve ir além do texto. Na Igreja Católica, é muito importante a recepção , isto é, o modo como normas e conteúdos são acolhidos e assimilados na vida de uma igreja local e nela se tornam expressão de fé. Segundo o cardeal Karl Lehmann, presidente da Conferência Episcopal Alemã, deve-se entender por “tendências homossexuais profundamente enraizadas” não quaisquer tendências neste sentido, mas aquelas que são um grave obstáculo para uma correta relação com homens e mulheres. Seguindo esta interpretação, pode-se dizer que também as tendências heterossexuais profundamente enraizadas são um grave obstáculo.

O ex-superior geral dos dominicanos, Timothy Radcliffe, trabalhou em todo mundo com bispos e padres, diocesanos e religiosos. Ele não tem dúvidas de que Deus chama gays ao sacerdócio. E afirma que eles estão entre os sacerdotes mais dedicados e impressionantes que encontrou. Por isso nenhum sacerdote que esteja convencido de sua vocação deve se sentir classificado pelo documento como incapaz. E pode-se presumir que Deus continuará chamando ao sacerdócio tanto gays como héeteros, porque necessita dos dons de ambos.

Quanto à “cultura gay”, Radcliffe diz que seminaristas e sacerdotes não devem freqüentar bares gays e que seminaristas não devem desenvolver uma sub-cultura gay. Qualquer sub-cultura sexual, gay ou hétero, é incompatível com o celibato. Mas apoiar a “cultura gay” significa apenas isto? Interroga ele. O documento afirma que a Igreja deve se opor à discriminação injusta contra os homossexuais, assim como ela se opõe à discriminação racial. Isto significa, então, que todos os sacerdotes devem estar preparados para se colocarem ao lado dos gays caso eles sofram opressão. E serem vistos do lado deles.

A sociedade, segundo ele, tem obsessão por sexo, e a Igreja deveria oferecer um modelo de sã e não compulsiva aceitação da sexualidade. O Catecismo do Concílio de Trento ensinava que o sacerdote deve tratar de sexo “de preferência com moderação do que com excesso”. Dever-se-ia haver mais atenção a quem os seminaristas podem odiar do que a quem eles amam. Racismo, misoginia e homofobia deveriam indicar que alguém pode não ser modelo de Cristo.

A Conferência dos Bispos Suíços também se pronunciou sobre a admissão ao sacerdócio:

“Nós somos profundamente gratos a todos os padres que vivem sua vocação com grande fidelidade. Nós temos consciência que em nosso colégio presbiteral e nos nossos seminários vivem co-irmãos com orientação heterossexual e outros com orientação homossexual. Nós respeitamos cada um como homem e co-irmão. Nós decidimos viver a castidade independentemente de nossa orientação sexual. Por isso, no âmago de nossas reflexões sobre o acesso ao sacerdócio, não há questão de orientação sexual, mas a disponibilidade de seguir Cristo de maneira coerente”.

Desta forma, a recepção do documento romano manifesta uma fidelidade criativa. Com maior apreço pela pessoa gay, ela aprofunda a reflexão, matiza conceitos e abre caminhos.