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Bento 16 e os Homossexuais
A eleição do novo papa gerou tristeza e preocupação em alguns segmentos da sociedade e da Igreja. O homem que foi o esteio doutrinal de seu antecessor é rotulado por alguns críticos mordazes como ‘o rottweiler de Deus’, um cão feroz da religião. Um dos focos da polêmica é condenação das relações homossexuais e do casamento gay. Segundo o Catecismo da Igreja Católica, lançado em 1992, tais relações são intrinsecamente desordenadas, contrárias à lei natural e em nenhum caso podem ser aprovadas.
Em resposta, vários homossexuais têm acusado a Igreja de minar a sua auto-estima, impondo um enorme sofrimento psíquico a milhões deles, além de estimular o ódio social contra os homossexuais . Só no Brasil, argumentam, um deles é assassinado a cada dois dias por pessoas homofóbicas. Um saldo bastante lamentável.
Será que isto é o mais relevante a respeito do novo papa e a questão da homossexualidade? Uma árvore pode esconder uma floresta. Basta que ela esteja perto de uma janela, tampando a paisagem. O observador deve ir além para conhecer a floresta escondida, sem medo de um suposto rottweiler.
De um modo geral, os últimos papas têm seguido a moral sexual de seus antecessores. Certos pontos, no entanto, tiveram alguma alteração e merecem atenção especial. O Catecismo diz que “um número não negligenciável de homens e mulheres apresenta tendências homossexuais inatas. Não são eles que escolhem sua condição homossexual” (no 2358). Há algo novo aqui. Isto significa admitir que algumas pessoas são estruturalmente homossexuais e que carregam esta condição por toda a vida. Não se trata, portanto, de algo que possa ser revertido ou ‘curado’, como se fosse uma doença. Convém lembrar que até 1991 a Organização Mundial de Saúde classificava a homossexualidade como doença.
Os homossexuais, prossegue o Catecismo, “devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á para com eles todo sinal de discriminação injusta”. A homofobia é condenada. Ninguém tem o direito de agredi-los, xingá-los ou equipará-los a criminosos. E muito menos de fazê-lo em nome da Igreja. Infelizmente, ainda há atitudes e discursos homofóbicos dentro da própria Igreja contrariando este ensinamento . Houve um tempo em que a Inquisição prendeu e condenou os que praticavam atos homossexuais. A chamada ‘sodomia’ era combatida com o mesmo rigor com que se combatia a heresia. Naquela época, a lei considerava ambas as práticas criminosas.
Recentemente, a Igreja pediu perdão a Deus pelos pecados de seus filhos, sobretudo pelas vezes em que se agiu com violência e intolerância em nome da fé. Foram os célebres mea culpa de João Paulo 2oe das conferências episcopais, que culminaram no Jubileu do Ano 2000.Assim se abre caminho para um futuro novo, que não quer mais repetir aquele passado. Este caminho está no rumo do Concílio Vaticano 2o: o do diálogo amplo, aberto e respeitoso com a sociedade moderna. Neste Concílio Ecumênico, que agora completa quarenta anos, o teólogo Joseph Ratzinger atuou intensamente. Foi o momento histórico em que Igreja reconheceu a liberdade de consciência - o direito de a pessoa agir segundo a norma reta de sua consciência - bem como a legítima autonomia das ciências e das realidades temporais.
Há eventos na história que apontam mudanças na sociedade e nas mentalidades. Estas mudanças se dão em um processo de maior duração, com avanços e recuos. Os tempos modernos viram o abandono do universo geocêntrico. Aceitar que a Terra se mova no espaço é mudar de paradigma. Alguns textos bíblicos, incluindo os Salmos, afirmam que “a Terra está firme e inabalável”. Eles foram usados para refutar o movimento do Planeta. Pouco a pouco, estes textos foram re-interpretados à luz da nova realidade que se impôs. Isto não se deu sem dolorosos conflitos.
Algo semelhante acontece em outro âmbito. O conceito de ‘homossexualidade’ surgiu há menos de 150 anos. Ele é um instrumento teórico novo para se refletir sobre uma realidade que já existia. A humanidade pode ser pensada como não sendo universalmente heterossexual, ao contrário do que sempre se imaginou. A atração pelo mesmo sexo pode ser entendida como um dado da natureza. É uma mudança de paradigma antropológico. Isto traz consequências para a sociedade, a ciência e a religião. Talvez ainda leve muito tempo para que se dê conta das transformações em curso.
A postura da Igreja é rica e complexa, como a floresta escondida pela árvore. Algumas de suas posições, se forem descontextualizadas e repetidas com insistência, favorecem a intolerância. Outras posições, no entanto, favorecem a tolerância e o diálogo construtivo. A imagem da Igreja e dos papas depende do que se retiver de seus gestos e palavras. Algumas coisas importantes podem cair no vazio e no esquecimento. Há portas que foram abertas. Aos que só virem um rottweiler, será inútil. Depende dos interessados trilhar o caminho que conduz ao respeito, à compaixão e à delicadeza.
Pe. Luís Corrêa Lima, S.J.
Historiador e professor da PUC-RJ
E-mail: lclima1962@gmail.com
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